Home > Eventos > Mulheres Ativistas da América Latina com Vandana Shiva

* Deixem-nos, na nossa diversidade, iniciar a articulação das Leis da Terra Mãe provenientes de cada uma das nossas culturas particulares. Deixem-nos contar as nossas histórias, para que esta história valiosa molde o futuro, e não a história patética e restrita daqueles que só sabem como fazer dinheiro às custas das outras pessoas, declarou Vandana Shiva. Este foi o objetivo que resultou da conversa entre Vandana Shiba e outras 5 mulheres ativistas da América Latina, cujo título era “Encuentro con Mujeres Latino Americanas”.

A videoconferência foi realizada dia 15 de maio de 2020 por Vandana Shiva, que conversou com outros participantes oriundos da América Latina. O diálogo, organizado pela organização Argentina Naturaleza de Derechos, pela Navdanya International, pela organização Boliviana Probioma, pelo centro Boliviano de documentação e informação ou CEDIB, pela Gwata UEG, Brasil e pelo Desvío a la Raíz, continha questões colocadas por estas cinco mulheres ativistas acerca da agenda política por trás dos pesticidas e sementes GMO, da importância do conhecimento e resistência dos indígenas,  e de como a solidariedade pode ser construída, mesmo no tempo atual de pandemia. Entre as anfitriãs desta reunião estiveram: Miryam Gorban de Catedra de Soberanía Almimentaria, na Argentina; Saturnina Almada da organização paraguana de Mujeres Campesinas e Indígenas Conamuri; Naiara Bittencourt com Tierra de Derechos, do Brasil; Erileide Domingues de a comunidade indígena Guyraroka no Pueblo Guaraní Kaiowa, em Mato Grosseo no Brasil.

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A conversação começou com a explicação da Dr. Shiva acerca de como esta história atual da pandemia do Corona Vírus se relaciona com a história mais antiga de agrotoxinas e da destruição de florestas para a expansão industrial da agricultura. Uma história que tem as suas origens fundamentais na mentalidade colonial, da separação e do domínio da vida. Por exemplo, Shiva refere como cerca de 17,000 quilómetros quadrados da Amazónia foram limpos ao longo dos últimos 11 anos, de forma a criar espaço para plantar soja geneticamente modificada. Esta plantação em massa de soja, relembra-nos Shiva, não é para alimentar a população humana, mas sim para servir como entrada industrial para biocombustível, ração de animais ou ingredientes para comida processada. Tendo em conta que enormes companhias de negócio agrícola controlam cada nível da cadeia de abastecimento – desde a semente patenteada GM até à comida produzida industrialmente.

Isto só pode ser realizado com a deslocação de agricultores, mulheres e comunidades indígenas, o que se relaciona com a história do domínio sobre a natureza, com a ameaça face aos modos de vida indígenas. Enrileide Domingues, no final da conversa, descreve como a sua comunidade sofreu impactos a nível da saúde devido aos usos de pesticidas. A situação agora piora, devido ao confinamento causado pelo Corona Vírus, não obstante as queixas apresentadas ao governo Brasileiro. Ela descreve como a limpeza das florestas também eliminou as suas formas de medicina naturais, tendo um duplo efeito negativo na debilitação da saúde comunitária.

Esta história exemplifica outro importante impacto desta destruição ecológica e a razão para a nossa atual crise de saúde global– a destruição de florestas leva a que novas doenças se desencadeiem, levando inevitavelmente a novas epidemias globais. A ligação entre estas duas crises demonstra-nos como este modelo atual de produção cria ciclos viciosos de doenças, em vez de saúde e bem-estar para todos, destaca Shiva. Mostrando-nos claramente como um paradigma indígena, local e agroecológico, que ama e protege a Terra em toda a sua diversidade, é essencial para preservar a saúde de todos os seres.

Atualmente, com o mundo confinado, os membros da conferência relembram-nos como os quartéis de veneno e os seus governos aliados não dispensam qualquer tempo para criar novas leis que proíbam a modificação genética de sementes e o modelo industrial da agricultura ao qual está ligado. Este é o caso da Bolívia correntemente, destacou um participante, onde em pleno confinamento devido ao Corona Vírus e sob um novo presidente interino, Jeanine Áñez, a Comité Nacional de Biossegurança emitiu um novo decreto afirmando que procuravam expandir os cultivos de milho, de cana de açúcar, de algodão e de soja geneticamente modificados para consumo interno e para exportação. Uma ameaça direta não só à herança da semente Boliviana, mas também à identidade do seu povo, sendo que a Bolívia é o segundo local originário de milho.

É aqui que vemos a importância da semente indígena e percebemos que é necessário quebrar este modelo industrial da agricultura. Não só a plantação da semente nativa fornece mais resiliência climática, sendo que as sementes ancestrais eram cultivadas por serem resilientes, estas também requerem solos mais saudáveis, acabando por absorver mais carbono, aumentando a prosperidade da biodiversidade e são geralmente mais nutritivas. Mas, talvez a lição mais importante dada pelas sementes orgânicas indígenas é a nossa relação com elas.  A semente é a ponte entre humanos e todas as outras espécies, sendo que encarna toda a evolução passada, todas as relações passadas que geraram esta semente, tal como todas as potenciais relações futuras, comenta Vandana Shiva. Devíamos cultivar as sementes nativa porque elas são nós, e elas são a natureza. Elas carregam a memória dos nossos antepassados e estas são também histórias para o futuro, sempre que contarmos as nossas histórias de resiliência, força, e solidariedade para com a Terra, também estaremos a cultivar o futuro com uma nova narrativa.

No fim, terminou Dr. Shiva, este encuentro tornou-se um exemplo de como organizações horizontais servem para levar diferentes grupos às mesmas conclusões e a partilhar histórias comuns, de modo a criar uma nova narrativa na solidariedade internacional. Fernando Cabaleiro de Naturaleza de Derechos expressou o seguinte no seu discurso final “estas mulheres são parte de um movimento que não só  ecológico ou ambiental, mas também de um movimento revolucionário que luta o extrativismo e a hegemonia capitalista que justificam os sistemas governamentais, ou aqueles que representam as grandes empresas. É um movimento que luta contra as desigualdades, a exploração e a acumulação de capital que os governos tentam promover. É fundamental ouvir o conhecimento das pessoas e o seu sofrimento. As mulheres compreendem melhor isto do que qualquer outra pessoa.”

De Carla Ramos Cortés para Navdanya International

*Tradução feita em Português de Portugal


Translation kindly provided by Silvia Tavares

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